Itália revisitada

Faz este mês um ano, estava eu a atravessar Itália de norte a sul (grande parte) de comboio. Através do programa Erasmus + visitei a Università del Salento, em Lecce. Iniciei a viagem de avião com destino a Bari, com saída de Lisboa e escala em Barcelona. Para  infortúnio, o voo de ligação que partia de Barcelona foi cancelado, o que resultou num dia de perca geral, com malas perdidas, horas em filas, regatear novo voo entre os poucos disponíveis… Do mal o menos consegui um voo no dia seguinte para Florença(!). Fiz o restante trajeto por comboio, que partiu de Bolonha.

mapa_da_italia

A razão desta minha partilha, nasce do acaso que me permitiu apreciar a costa oriental Italiana ao som de um dos melhores álbuns de 2015. Fazê-lo absorvendo toda mística do meio de transporte e da circunstância, foram 10h30 de viagem que me possibilitaram parar e observar. O álbum é o Carrie & Lowell do autor Sufjan Stevens. É um álbum de revisita, cheio de melancolia, sofrimento e amor. Casou bem comigo e com o momento.

Partilho um pequeno vídeo que fiz da viagem, neste caso ao som da música homónima Carrie & Lowell. Ver vídeo aqui.

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35/40 horas

Peter Drucker em 1954, através do seu livro The Practice of Management, apresentou a “Gestão por Objetivos”.

A teoria da gestão por objetivos aponta a que a gestão de uma organização, resumindo, esteja toda ela orientada para os resultados. Ou seja, não basta correr, é preciso saber para onde.

Esta visão é atualmente aceite e partilhada pela grande maioria das organizações e empresas do mundo inteiro. Como base, um planeamento estratégico, que adequa o caminho percorrido com o caminho a percorrer, as necessidades com a disponibilidade, a vontade com os meios, os objetivos com os resultados, é uma ferramenta primordial, para que a organização esteja em sintonia e orientada para o sucesso.

Outra questão que importa referir, para a discussão do tema título, é a legitimidade e âmbito da ação da gestão de topo. Se, no setor privado não existem dúvidas, já no setor público o assunto está sempre na ordem do dia. A autonomia administrativa e financeira das Instituições Públicas não possibilita suficientemente uma gestão acurada de meios e pessoas. Realidades diferentes agrilhoadas a uma legislação pouco flexível, em constante mutação, permitem pouca margem de manobra no que toca, principalmente, à gestão de pessoas.

Isto para dizer que, discutir-se continuamente, se a carga horária de trabalho adequada serão 35 ou 40 horas semanais, será tão inútil quanto um grão de areia no deserto. Não existe uma resposta certa. Todas as organizações são diferentes. Umas terão necessidade de menos carga horária, outras de mais. Outras com picos de trabalhos sazonais, outras com um volume de trabalho regular ao longo do ano. É certo que deverá ser estabelecida uma bitola, mas nada mais. Esta gestão deverá ser feita por quem dirige.

Esta, entre muitas outras, seria mais uma oportunidade para a gestão de topo gerir os seus recursos. Se os gerisse bem, seria recompensado, se os gerisse mal, seria responsabilizado.

Viver num sistema baseado na accountability é crucial para o desenvolvimento do mesmo. Claro que depois viriam os aumentos das remunerações de quem gere, etc. Mas pergunto, se já se descobriu o caminho certo, porque não fazê-lo? Fazer o caminho, deitando mão de todas as ferramentas, tecnologias, inovações e descobertas disponíveis. Não se pode viver para sempre com um pé dentro e outro fora, sob pena de se ficar parado no mesmo sítio.

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A fé

Nesta semana que passou, marcada tragicamente pela religião, ficámos a saber, ou relembrámos, que o Homem existe em mais dimensões do que a física. Ficamos a saber que a dimensão espiritual tem um peso enorme na vida humana.

Ao longo da história que registos temos de pessoas que matam para defender o seu sustento, o seu ordenado, aquilo que garante a sua subsistência? Atenção que não me estou a referir a enriquecimento ou a crime organizado, que matam para defender não só o seu sustento, mas um modo de vida ilícito. Estou a falar dos “Les Misérables”, roubar ou matar, por pão. – Acredito que poucos.

Ao longo da história foram cometidas todo o tipo de atrocidades em nome da religião, em nome de entidades superiores. Milhões de almas já foram entregues ao criador, em nome dele próprio (curioso?). Escrituras sagradas, milagres, fantasias, tudo o que possa eventualmente servir vontades e interesses em nome da fé e da crença. É verdade que a fé cega, o dinheiro e poder alumiam bem o caminho.

Sabemos que somos um animal cada vez mais racional. A lógica inunda a nossa vida! Portanto, o que estará na origem desta tragédia, o espírito ou a carne? O que corrompe a mente e as vontades?

Se no passado as torres do capitalismo foram derrubadas, agora foi a vez de um símbolo da liberdade de expressão ser calado.

Símbolos são poder e o poder cega, ou será que era a fé?

(o texto abaixo foi introduzido após publicação)

Ontem tive a oportunidade de ver um pequeno vídeo reproduzido no final do programa a “Barca do Inferno”, que não resisto a partilhar.

Excerto do Graham Chapman’s Memorial Service – John Cleese

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Os filmes e a vida

Para começar 2015, trago dois filmes e duas experiências diferentes. – Outra coisa não seria de esperar. Vou concretizar, tentando não “spoilar”.

O primeiro, Gone Girl (2014), uma surpresa, uma boa surpresa (atenção, não confundir com o Gone Baby Gone (2007)). Uma surpresa, porque pelas minhas contas, a coisa não iria correr bem:

  1. Ben Affleck no principal papel;
  2. Uma história gasta (a esposa desaparecida).

A favor tinha “apenas”, como realizador, um extraordinário contador de histórias, David Fincher. E assim foi, mesmo com uma enredo com algumas fragilidades, o “mágico” Fincher consegue transformar água em vinho, num filme de acalmia e repelões, com twists de ficção, realidade, e reflexão, acerca das relações, dos casais, do controlo, do poder e da vida. Aconselho.

O segundo, Boyhood (2014), uma constatação. Um filme que se anuncia como um acompanhamento da vida de um menino, desde a infância à adolescência (cerca de 12 anos). Cumpriu o objetivo. Revela-se um filme pouco dado à profundidade e densidade, próprio de uma vida que passa. Os momentos altos e baixos da vida deste jovem, são limados de forma a que este siga o seu caminho, como uma jangada que desce um rio calmo.

A vida é isto. É claro que a vida tem drama e momentos marcantes, mas à medida que se tornam passado, a marca que estes momentos deixam, são suavizados, aveludados, ficando para sempre apenas uma parte de nós. O Tempo. Acerca do crescimento e também das relações, dos casais, da parentalidade, da responsabilidade e do sentido da vida.

Aconselho, para ver com tempo (porque o filme é grande) e apreciar. Não se espere uma montanha russa de emoções, mas sim a vida como ela é.

Um excelente 2015 para todos vós.

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A escolha

Se sabemos algo acerca de nós próprios, humanos, é que o que nos define vai para além do infinito. Todos nós somamos genética, conhecimento, influências, experiência e tudo o resto ao longo da nossa vida. As nossas escolhas serão resultado disso mesmo. Resultam daquilo que somos.

Claro que quando nos chamam “imbecil!!”, a coisa fica um bocado redutora, mas que em determinado momento até poderá corresponder à verdade.

De ser “imbecil” (i), até ser uma “T-shaped person” (T) vai um grande/pequeno passo. As oportunidades encarregam-se de revelar a essência de cada um, sabendo que somos um todo, que vai lapidando, desenvolvendo, adaptando indefinidamente.

Para aqueles que procuram emprego, procurem também o que é melhor para vós. Escolham de dentro, porque o que vem de fora, nunca vos satisfará.

Trago este assunto (já com uma extensa introdução), para dizer que numa entrevista o candidato, não é o único objeto em análise. A empresa, o entrevistador, a cultura, o foco e natureza dos temas abordados também são analisados pelo candidato. Ainda durante a entrevista é possível ao candidato, a todo o tempo, carregar no botão “desisto” (de resto, já me aconteceu pessoalmente) se os sinais se apresentam demasiado contranatura.

Somos capazes do melhor e do pior, no entanto não deixo de acreditar que num ambiente favorável, existe mais probabilidade de mostrar o melhor de nós, mostrar mais vezes o “T” do que o “i”. Daí que a escolha também nos defina. A dependência financeira estreita a visão a qualquer comum mortal, mas é importante escolher os desafios que nos fazem desenvolver e crescer. São esses desafios que nos permitirão evoluir e alcançar outros patamares, quem sabe até a nível remuneratório.

Não vão atrás do dinheiro para ter sucesso, o dinheiro segue o sucesso e não o contrário.

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A credibilidade

Esta semana temos um tema incontornável na vida dos Portugueses. Tão incontornável, que nem eu consigo evitá-lo.

Não, não é o novo calendário Pirelli, mas sim a alegada corrupção na cúpula do nosso sistema Político e Institucional.

Geralmente não me presto a estes assuntos… Existem sempre muitas verdades e muitas mentiras, copos meio cheios e meio vazios. Uns dizem “…deviam ser todos enforcados!!!”, outros dizem “…coitadas das pessoas que estão a ser linchadas em público…”

– Vamos deixar a justiça funcionar, com todos os seus defeitos e virtudes, e depois tirar conclusões. Dito isto não podemos deixar de refletir sobre alguns assuntos.

Quem pode atestar a credibilidade das Instituições? Eu digo que são principalmente 3 agentes:

  • Os clientes/utentes/contribuintes;
  • Avaliação – Missão/Objetivos;
  • Supervisores/Governo.

Acontece que as Leis ditam e regulam o caminho, mas também sabemos que existem interpretações da Lei, ousadas ou não, que por vezes distam da intenção do Legislador. Ainda assim são práticas que estão enraizadas na cultura dos povos e das gentes. Exemplo disso é a buzinadela. O Código da Estrada impõe que os “sinais sonoros” sejam “breves” e usados apenas em situações de “perigo eminente” (artigo 22.º). E acrescenta: “Dentro das localidades, durante a noite, é obrigatória a substituição dos sinais sonoros pelos sinais luminosos” (artigo 23.º). A infração implica uma coima de até 300 euros, no entanto se nos passearmos pelas ruas de Lisboa, não mais do que 30 minutos serão suficientes para colecionar uma orquestra de buzinadelas, apenas porque sim.

As questões que aqui deixo são:

  1. Será que a corrupção está enraizada na cultura portuguesa? – Sim. Há sempre alguém que sabe “como as coisas funcionam”. Como se de um mundo à parte se tratasse;
  2. Será que as pessoas que estão no poder (das Instituições) merecem confiança? – Sim, porque os primeiros a dar-lha são os seus pares;
  3. Será que o sistema falha no assegurar do bom funcionamento das Instituições, garantindo a sua credibilidade? – Sim, porque o sistema português, na generalidade, falha na avaliação. Da qualidade do serviço prestado, da relação entre a Missão/Objetivos e sua concretização, e falha na supervisão, que poderia ser feita por mais do que uma Entidade ou Instituições congéneres.

“Quase todos os homens são capazes de suportar adversidades, mas se quiser colocar à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder.” Abraham Lincoln

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